Doenças Raras: febre familiar do mediterrâneo

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Na lista das doenças consideradas raras, a febre familiar do mediterrâneo (FFM) tem origem genética de herança autossômica recessiva. Isso significa que, para ser afetado, o paciente necessariamente herda a mutação genética tanto do pai quanto da mãe. Os pais de uma pessoa com FFM geralmente carregam o gene mutado, mas não manifestam os sintomas da doença e, por isso, são chamados de portadores.

A FFM se caracteriza por mutações no cromossomo 16, no gene chamado MEFV (mediterranean fever), responsável pela produção de uma proteína chamada pirina ou marenostrun. A FFM é uma doença autoinflamatória e não autoimune.

Por ser uma doença rara, encontrar informações sobre a FMM nem sempre é tarefa fácil. Por isso, fomos conversar com o Dr. Leonardo Oliveira Mendonça, da Clinica Croce, imunologista e especialista em doenças raras autoinflamatórias pela Sociedade Européia de Imunodeficiências.

1 – Quais os sintomas da febre familiar do mediterrâneo?

A febre familiar do mediterrâneo (FFM) se manifesta geralmente antes dos 20 anos de idade, mas já foi descrita em pacientes após os 40 anos. O sintoma que mais chama atenção são as febres recorrentes, que duram, em média, de 1 a 3 dias, acompanhadas ou não de outros sintomas. A dor abdominal no lado direito da barriga acompanha a febre e costuma ser intensa, como uma apendicite. Outro sintoma que costuma ocorrer é dor torácica, que piora quando a pessoa inspira. Também é muito comum numa crise febril a dor articular, que pode ser leve, ou até intensa, e acompanhada de inchaço e vermelhidão. Podem ocorrer manchas na pele, sendo a mais comum localizada no tornozelo (parece uma erisipela, ou infecção na pele). Outros sintomas podem acontecer em menor frequência, como pericardite (inflamação da camada que envolve o coração); orquite (inflamação do saco escrotal); e manchas do tipo púrpura de Henoch-Shönlein.

2- Quem está sob mais risco de desenvolver a febre familiar do mediterrâneo?
A FFM tem frequência mais elevada em alguns indivíduos de origem mediterrânea, principalmente árabes, judeus, turcos e armênios. A real prevalência da doença no mundo não é conhecida, pois pode variar de país para país.

3 – Como é feito o diagnóstico de febre familiar do mediterrâneo?
Requer três passos:
1. Manifestações clínicas: Por meio de um médico experiente, deve-se excluir inicialmente qualquer outra causa que possa levar a tais sintomas. Depois disso, é necessário preencher alguns critérios mínimos já bem estabelecidos.

2. Comprovação laboratorial da inflamação: o segundo passo é comprovar que houve inflamação sistêmica em uma crise, com aumento de marcadores agudos de inflamação. Para isso, é sugerido que durante uma crise – e fora dela – sejam feitas dosagens de hemograma, proteina C reativa e velocidade de hemossendimentação. Na crise de FFM, espera-se aumento dos números dos leucócitos, aumento do número de neutrófilos, aumento de PCR e VHS. Fora da crise, estes valores tendem a se normalizar ou a baixar consideravelmente.

3. Achados genéticos: fundamental para o diagnóstico da FFM, a análise genética pode ser feita por meio de vários métodos para procurar mutações nas partes funcionalmente ativas (exons) ou inativas (introns) do gene MEFV. Para confirmação genética, é necessário encontrar duas mutações, habitualmente caracterizadas como patogênicas (capazes de produzir uma doença ou dano no organismo). Contudo, grande parte dos pacientes preenche os critérios clínicos e laboratoriais, mas não possui mutações ou possui apenas uma mutação no gene MEFV.

4- Como a febre familiar do mediterrâneo pode afetar a vida do paciente?
Primeiramente, há uma luta pelo diagnóstico correto, uma vez que esse caminho é difícil e o diagnóstico é feito por exclusão. Nos períodos de febre, os pacientes não conseguem exercer suas atividades habituais: crianças não vão para a escola e adultos faltam ao trabalho. Quando subtratada ou não tratada corretamente, a cada surto inflamatório ocorre a formação e o depósito de uma proteína de alto peso molecular, chamada de amiloide, que se acumula em vários tecidos, levando ao quadro de amiloidose. A amiloidose é uma grave complicação da FFM, que pode levar à morte.

5 – Como é feito o tratamento da febre familiar do mediterrâneo?
Com base no bloqueio da atividade da proteína chamada pirina. O tratamento inclui corticoides, embora seu uso prolongado seja evitado por conta dos efeitos colaterais desta medicação. Existem outros tratamentos usados para prevenir as crises, incluindo opções que podem trazer controle completo da FFM, grande qualidade de vida e reversão da amiloidose.

 

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