Endocrinologista: Como funciona a reposição hormonal em transgêneros

Endocrinologista: Como funciona a reposição hormonal em transgêneros

3 de setembro de 2020 0 Por Editor

O Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou novas resoluções para o procedimento de cirurgia e reposição hormonal em transgêneros. As alterações atualizaram medidas adotadas em 2010, e consideram que a inconformidade de gênero ou transgênero é a não paridade entre identidade de gênero e sexo de nascimento. 

A partir disso, o CFM estabeleceu também a obrigatoriedade dos serviços de saúde em oferecer acolhimento, acompanhamento ambulatorial e demais tratamentos previstos para essa parte da população. 

A atenção integral deve contemplar todas as necessidades, garantindo o acesso, sem discriminação, à unidades de atenção básica, especializada e de urgência e emergência. No artigo de hoje, você poderá conferir como é a reposição hormonal em transgêneros, realizada por endocrinologistas. Acompanhe.

Compreendendo o significado da palavra transgênero

Indivíduos transgêneros são aqueles que apresentam Transtorno de Identidade Sexual, responsável pela não identificação com o sexo biológico, mas com o sexo psicológico, causando sofrimentos aos mesmos. 

É importante destacar que a terminologia transgênero engloba a transexualidade, travestilidade e outras expressões identitárias. A inadequação corporal ocasiona o desejo de um corpo que possa corresponder à sua identidade de gênero, visto que é causado um desconforto com o próprio gênero concedido. 

A expressão transgênero surgiu como forma de designar a inconformidade de indivíduos com seu sexo biológico desejando a troca de gênero. Comumente, indivíduos transgêneros expressam o desejo de serem aceitos na sociedade como apenas um membro da mesma, contudo, costumam enfrentar discriminação e obstáculos, além de estarem tomados pela angústia e desconforto em relação ao sexo biológico.

Ao não se identificarem com o sexo biológico designado por nascimento, alguns buscam assistência médica para intervenções visando afirmar o gênero de sua identidade. Essas intervenções incluem desde tratamentos estéticos a  cirurgia e reposição hormonal em transgêneros. 

A reposição hormonal em transgêneros

Buscando amenizar características físicas e biológicas, e desenvolver aquelas do sexo com o qual se identificam, a reposição hormonal em transgêneros vem ganhando cada vez mais espaço em meio à comunidade formada por indivíduos que possuem identidade de gênero que difere do sexo de nascimento.  

Ainda que seja difícil a realização, muitos transgêneros recorrem a esse tratamento ao atingir a disforia, estado emocional em que começam a rejeitar o próprio corpo. Além da reposição hormonal, a alternativa cirúrgica também é uma realidade. 

Na prática, é possível observar a prevalência da transexualidade com disforia de gênero ao longo do tempo, levando cada vez mais indivíduos a buscarem auxílio clínico, seja para o tratamento hormonal, para solicitação da cirurgia de adequação sexual, ou ambos.

O acompanhamento de pessoas com incongruência de gênero deve ser feito no contexto de um serviço especializado, com endocrinologista especialista e o auxílio de uma equipe multiprofissional e multidisciplinar. A abordagem da transgeneridade inclui além do profissional da endocrinologia, a presença de psicólogos e psiquiatras.

O tratamento voltado para afirmação de gênero visa alinhar características físicas à identidade de gênero, e para tal, são utilizados hormônios sexuais exógenos e anti-andrógenos na terapia hormonal em transgêneros.

O apoio do laboratório clínico é essencial para acompanhar a efetividade do tratamento com segurança. Em casos de homens trans, realiza-se dosagens séricas de testosterona total, hormônio luteinizante (LH) e hormônio fólico estimulante (FSH). 

Já em mulheres trans, as dosagens séricas são da testosterona total, estradiol total, prolactina, LH e FSH de forma regular durante todo o tratamento hormonal. Os pacientes podem ainda necessitar de avaliações laboratoriais para alterações secundárias, tais como desequilíbrios eletrolíticos e metabólicos, motivos pelos quais a monitorização de riscos não deve ser esquecida.

Reposição hormonal em adolescentes transgêneros

Visando reduzir o nível hormonal endógeno e manter níveis hormonais compatíveis com o do gênero oposto, a terapêutica hormonal é uma forma de promover o surgimento de características sexuais secundárias do gênero desejado, amenizando características sexuais secundárias do sexo biológico. Essas mudanças físicas são uma forma de proporcionar bem-estar físico, mental e emocional ao indivíduo ainda na adolescência.

Existem diferentes hormônios produzidos no corpo por um sistema de glândulas. Tais hormônios são despejados diretamente na corrente sanguínea, para que as funções em todo o corpo sejam realizadas. Entre eles estão os hormônios sexuais, testosterona, produzido em testículos, e estrogênio, produzido pelos ovários.

De forma geral, a testosterona possui efeitos masculinizantes, enquanto o estrogênio tem efeitos de feminização. Junto com fatores genéticos, os hormônios sexuais afetam o desenvolvimento do sistema reprodutivo, características físicas, como altura, constituição física, massa muscular e distribuição adiposa, e cérebro.

Em pessoas com sistema reprodutor testicular, antes do nascimento, uma forma forte de testosterona impulsiona o desenvolvimento de testículos e pênis. Sem esse impulso com a entrada da testosterona, indivíduos com sistema reprodutor ovariano desenvolvem clitórios, lábios, ovários, útero e vagina. O sistema hormonal responsável por todos esses estímulos é chamado sistema endócrino, e é tratado pelo endocrinologista, especialista no assunto dentro da medicina.

É durante a puberdade que os hormônios sexuais vão proporcionar o desenvolvimento das chamadas características sexuais secundárias. Em pessoas com sistema reprodutor ovariano, as características incluem seios e pêlos pubianos e em axilas.

Em indivíduos com sistema reprodutor testicular as características envolvem  pêlos faciais e corporais, pomo de Adão proeminente, aprofundamento da voz, alargamento do pênis e testículos, ereções, pêlos pubianos, aumento da altura e massa muscular. 

Efeitos físicos do tratamento hormonal para transgêneros

Para uma mulher trans, o tratamento hormonal em transgêneros terá hormônios sexuais cruzados que serão úteis para tornar a aparência mais feminina. Já em um homem trans, a aparência deverá ser mais masculina. Entretanto, para homens e mulheres transgêneros, é preciso ser realista em relação a extensão das mudanças que são esperadas. 

Mulheres transgêneros

Para mulheres trans, a reposição hormonal em transgêneros conta com o hormônio estrogênio, que tem como função desenvolver características sutis femininas. Veja quais são elas:

  • gordura distribuída em quadris;
  • tamanho do testículo e pênis podem ser ligeiramente reduzidos;
  • massa muscular pode ser reduzida;
  • ereções podem passar a ser mais difíceis;
  • seios ficam reduzidos e irregulares, aumentando em tamanho;
  • crescimento em pêlos faciais e corporais podem se tornar mais fracos;
  • calvície de padrão masculino pode ser interrompida.

Homens transgêneros

Já para homens transgêneros, a reposição hormonal é realizada com o hormônio testosterona. A partir da introdução de seu uso, os seguintes efeitos podem ser observados no corpo:

  • promoção do crescimento de pêlos pelo corpo e barba;
  • calvície de padrão masculino pode começar a se desenvolver;
  • o clitóris tem seu tamanho ligeiramente aumentado;
  • a libido pode ser aumentada;
  • massa muscular aumenta;
  • ocorre o aprofundamento da voz;
  • a menstruação é interrompida, embora ainda possa haver sangramento até o ajuste da dosagem;
  • desenvolvimento de acne em alguns casos.

A maneira como o indivíduo irá responder a reposição hormonal em transgêneros deverá ajudá-lo a decidir, em conjunto com seu médico, se é o correto para seu organismo. Caso os efeitos sejam inúteis ou desagradáveis, poderá ser indício de que o tratamento não é adequado, sendo necessário a interrupção, que pode ser feita a qualquer momento. 

Contudo, caso o indivíduo comece a sentir-se melhor de forma física e psicológica, esse sinal positivo irá beneficiá-lo a continuar mantendo a terapia hormonal, indicando que este é o caminho certo. Além disso, paciente e médico deverão ter certeza sobre a reposição hormonal, visto que todas as mudanças físicas acima mencionadas deverão ocorrer.

Algumas delas podem acontecer após meses, sendo irreversíveis, como o engrossamento da voz em homens trans e crescimento de mama em mulheres trans. Entretanto, a maior parte das mudanças são de desenvolvimento lento. 

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Por esse motivo, muitas vezes pessoas transgêneros sentem-se frustradas com o ritmo lento de suas mudanças provocadas pelo tratamento hormonal. É preciso sempre se lembrar que, assim como a puberdade, as mudanças físicas estão espalhadas ao longo dos anos, e doses elevadas de hormônios não necessariamente pode produzir resultados melhores e mais rápidos. 

Podemos ter como exemplo, mulheres adultas cis que só alcançam a forma da mama após vários anos de exposição ao estrogênio durante o período da puberdade, com tamanhos diferentes de mama.

Adolescentes transgêneros

Em casos de adolescentes transgêneros, o indivíduo poderá sentir forte senso de conflito entre sua aparência e identidade de gênero durante o período da puberdade, visto que seu corpo está começando a desenvolver a forma adulta.

Neste momento, bloqueadores hormonais podem ajudar temporariamente a suprimir mudanças mais óbvias para o corpo, proporcionando um espaço de tempo para que o adolescente possa decidir como gostaria de viver com adulto. Atualmente, esse tratamento não pode ser realizado até depois das mudanças que ocorrem na puberdade serem completadas.

O tempo de duração do tratamento de reposição hormonal

O tratamento de reposição hormonal em transgênicos é uma terapia que deverá durar por toda vida, caso o indivíduo tenha o desejo de manter os efeitos do estrogênio ou da testosterona no corpo. Se em alguma das etapas, a pessoa decidir ter testículos (mulheres trans) ou ovários (homens trans) removidos por meio de cirurgia, a dose hormonal será normalmente reduzida. No entanto, ainda será suficiente para produzir os efeitos necessários para manter o indivíduo bem, protegendo-o contra males como a osteoporose. Caso seja um adolescente que ainda esteja realizando o uso de bloqueadores hormonais, o tratamento será interrompido por completo. 

Riscos da reposição hormonal em transgêneros

O tratamento médico para reposição hormonal deve ser baseado em evidências científicas, entretanto, existem poucas pesquisas sobre o uso de hormônios sexuais cruzados. Por esse motivo, a orientação é que seja utilizado de forma flexível, atendendo as necessidade específicas e mantendo o risco para a saúde do paciente o mais baixo possível.

Realizar o tratamento hormonal com um médico especializado e fazendo uso de doses razoáveis é notavelmente seguro. Os hormônios prescritos por esse profissional serão muito parecidos com os produzidos pelo corpo, e a maioria dos transgêneros que o realizam de forma correta não apresentam maiores problemas.

No entanto, toda medicação é passível de efeitos colaterais e, em algumas pessoas as reações adversas podem ser mais sérias. O paciente deve estar ciente dos possíveis riscos, ainda que muitos deles sejam remotos, antes mesmo de iniciar o tratamento. Alguns dos riscos mais graves do uso do estrogênio e da testosterona são:

  • trombose;
  • TVP (trombose venosa profunda);
  • embolia pulmonar (bloqueio de um vaso sanguíneo nos pulmões;
  • alterações da função hepática;
  • policitemia (aumento da produção de células vermelhas no sangue);

O risco de desenvolver complicações decorrentes da terapia hormonal é relativamente pequeno, sendo menor ainda em indivíduos saudáveis. Casos de trombose em mulheres trans são mais prováveis de acontecer durante o primeiro ano do tratamento, especialmente se a pessoa estiver utilizando o hormônio chamado etinilestradiol. Com o uso do estradiol, hormônio mais prescrito para mulheres trans atualmente, o risco de trombose se torna inferior.

A forma como o indivíduo faz o uso de hormônios também pode fazer certa diferença em como o corpo reage. Os que podem ter mais riscos, como pessoas acima de 40 anos, costumam ser aconselhadas a utilizar hormônio em adesivos, para que o medicamento seja absorvido por meio da pele.

Comparado a comprimidos, injeções e gel, os adesivos hormonais proporcionam a liberação de forma gradual na corrente sanguínea, permitindo que o corpo seja capaz de tolerar mais facilmente.

A necessidade do monitoramento durante a reposição hormonal

Realizar o monitoramento diante da reposição hormonal em transgêneros permitirá ao médico garantir seu bem-estar e segurança, além de controlar a devida absorção do medicamento pelo corpo.

Monitorar o indivíduo proporciona que quaisquer problemas de saúde sejam identificados precocemente, de modo que, caso seja necessário, o tratamento hormonal possa ser ajustado, ou medicamentos adicionais sejam prescritos.

É realmente importante que o paciente em tratamento apresente detalhes ao seu médico de qualquer histórico na família, como câncer de mama, distúrbios hepáticos ou circulatórios. Eles podem significar que o tratamento hormonal não é seguro, proporcionando ao endocrinologista aconselhar o indivíduo sobre outras opções de tratamentos disponíveis, além de acompanhar por meio da supervisão, para que as necessidades específicas sejam atendidas.

Manter um estilo de vida saudável é outro detalhe importante para um tratamento tranquilo e seguro. Além de uma alimentação equilibrada, realizar exercícios físicos regularmente é essencial. Já o consumo excessivo de álcool, uso de drogas e abuso de açúcar são grandes prejuízos ao organismo, apresentando grandes riscos para o tratamento e complicações, assim como a obesidade, que pode afetar as chances da realização da cirurgia.

O tabagismo em particular, é um risco significativo para quem está realizando a reposição hormonal. Além disso, para mulheres trans que estão fazendo uso de estrogênio, o cigarro pode reduzir seus efeitos.

Caso esteja sob medicação para outros tipos de doenças, como câncer ou uso de drogas anti-retrovirais para o HIV, é necessário informar o médico. Contudo, para casos de HIV positivo, essa não é uma condição para ter o tratamento hormonal recusado.

Cuidados como monitorização da pressão arterial, exames de sangue regulares, e análise de ossos, peitos e pelve devem ser realizados. É fundamental entender que, mesmo com acompanhamento regular, o indivíduo ainda poderá sentir efeitos secundários adversos.

Desconfortos como dor no peito, falta de ar, dores na panturrilha de forma anormal ou frequente e dores de cabeça são motivos para procurar ajuda médica com urgência durante o tratamento hormonal.

Riscos da reposição hormonal sem prescrição médica

Mesmo com prescrição médica e acompanhamento por meio de monitorização, alguns perigos podem estar presentes durante a reposição hormonal em transgêneros, como você constatou acima.

Para indivíduos que se arriscam a realizar o tratamento sem prescrição médica, maiores riscos poderão estar presentes, como a falta de informações quanto à combinação de hormônios com outros medicamentos ou produtos que ele possa vir a consumir. O exame de saúde para verificar quaisquer condições que podem ser afetadas pela medicação hormonal não estará presente, assim como a dosagem correta do medicamento que deve ser tomado, o uso do meio de aplicação pode não ser o adequado, e outros tantos perigos que podem custar até mesmo a vida. 

Caso o transgênero tenha iniciado a terapia hormonal dessa forma, é importante que ele possa se consultar com um médico especialista o quanto antes, visto que o profissional poderá levá-lo a um regime medicamentoso devidamente prescrito de forma rápida e efetiva.

Utilizando hormônios que foram prescritos, os riscos de complicações são baixos, e os efeitos colaterais indesejados tornam-se incomuns, variando de pessoa para pessoa, de acordo com a medicação específica que foi adotada. Por isso, o acompanhamento junto a um especialista é fundamental.

Realizar a automedicação é extremamente arriscado e mesmo assim, muitos ainda optam por esse caminho, seja por constrangimento de buscar ajuda médica, por motivos financeiros, ou afins. 

Contudo, é importante que a pessoa que decide se automedicar conheça todos os riscos com os quais terá que conviver, entendendo que os resultados são variáveis. Dessa forma, a chance de desistir de uma ação arriscada como essa e procurar auxílio médico é maior.

No artigo de hoje você pôde conhecer melhor como funciona a reposição hormonal em transgêneros, os motivos pelos quais ela pode ser feita, seus riscos e a importância de buscar um profissional para acompanhamento médico e psicológico, evitando complicações e garantindo o bem-estar físico e mental do indivíduo.

Este assunto foi útil? Então, confira também a importância do endocrinologista na saúde da mulher!

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